Tá todo mundo mal

Fomos até Perus, bairro da zona norte de São Paulo, para entender um pouco mais sobre os projetos que a professora de informática Elaine Martins criou, e o envolvimento dos alunos nessas experiências

O jornalista e pesquisador Douglas Calixto, um dos entrevistados do Memensina, realiza discussões envolvendo memes e educação em algumas escolas de São Paulo. Foi por meio dessas discussões que a professora de informática Elaine Martins se revelou como uma personagem para este tão aclamado site. Os alunos da EMEF Professor Jairo de Almeida, onde a professora leciona, estavam passando por um momento difícil, de baixa autoestima, que acabou por desencadear episódios de bullying e até automutilação.

Assim, Elaine decidiu convidar Douglas para conversar com a galera sobre redes sociais - essa entidade que, ora nos presenteia com vídeos de gatinhos fofinhos, ora nos derruba por forjar uma realidade insistentemente feliz. Não foi a primeira vez que a professora foi rápida em identificar uma demanda dos alunos e agir diante da situação. Se hoje a Jairo conta com palestras de convidados externos, projetos como Imprensa Jovem e equipamentos como uma impressora 3D foi depois de muita sola de sapato gasta ou, então, muito networking.

Mil tretas para que a escola tivesse estrutura tecnológica daora. E o governo? Não faz nada! Mas, menina, acredita que dessa vez fez? Elaine conta que era heavy user (tradução livre: usuária pesadona) do Twitter e, dessa forma, chamou a atenção do, então, secretário da educação Alexandre Schneider na rede. Papo vai, papo vem, Elaine convidou o secretário para a festinha de 20 anos da escola. Maior clickbait da história. Alexandre, que foi à escola esperando comemoração, foi presenteado com um grandessíssimo: "olha aqui o que a gente precisa".

Brincadeiras à parte, rolou sim uma comemoração bem legal no dia 22 de setembro de 2018. Mas, a visita do secretário também proporcionou uma reforma na escola, que foi pintada e recebeu novos equipamentos. Mais uma vez o mundo foi salvo graças à internet.

Elaine Martins conta um pouco sobre seus projetos na escola EMEF Professor Jairo de Almeida.

“A velocidade das redes sociais é muito mais rápida do que eu colocando uma questão pra que eles reflitam.”​ Elaine Martins

Os alunos, sempre citados por Elaine, são interessados e participam ativamente dos projetos desenvolvidos na escola. Fenômeno nunca antes observado na história deste país. Além do trabalho com tecnologia e redes sociais, a professora ainda destaca a necessidade de fomentar o pensamento crítico a respeito da interferência desses recursos na vida de cada um. Criar esses projetos também é uma forma de ampliar o foco da gurizada que, por vezes (e bota vezes nisso), não se adapta a modelos rígidos de aprendizado. No caso de Marina Cintra, estudante do 6° ano, por exemplo, um aplicativo no celular permite que tenha acesso a aulas de inglês. 

Apesar de alguns estudantes ainda considerarem haver espaço para mais mudanças na escola, mais câmeras para Imprensa etc, eles reconhecem a importância do investimento em equipamentos já feito. Assim como a constante renovação dos projetos que envolvem esses recursos. Kaiky Santos, aluno do 9° ano, acredita que os memes e outros trabalhos envolvendo tecnologia cumprem um papel de descontração nas aulas. Mas também estimulam o aluno a solucionar problemas com criatividade e se empolgar com o ambiente escolar.

Alunos da Jairo contam um pouco de suas opiniões sobre os projetos com memes e tecnologia.

O engajamento e apoio do corpo docente para a efetivação dos projetos é fundamental. De acordo com Elaine, nem todos professores estão sempre abertos a esses formatos diferentes de aula. Algumas atividades, como é o caso de uma discussão ou oficina, agitam a turma e, depois, fica difícil conter o pessoal. As professoras Adélia Chaves e Cildea dos Santos são algumas das que se mostram mais receptivas a essas experimentações. Mas fazem o contraponto: a tecnologia não se encerra em si mesma, rapaziada. Não adianta ter o mundo nas mãos, como o Google realmente nos oferece assim que assinamos o pacto de dividir todo e qualquer dado sobre nossa vida privada, se isso não for utilizado para algo realmente significativo.

Parafraseando Cildea: usar o Instagram para selfie é fácil, quero ver para promover projeto de impacto social. Talvez a responsabilidade da escola resida justamente aí, em auxiliar os alunos a perceberem o potencial daquilo que têm acesso na palma da mão. Mas também em mostrar que o mundo não se resume ao que a tela alcança. É preciso explorar e ocupar espaços além disso.

“A educação tem que propor ao cidadão pra ele ir pro mundo. Não ficar só dentro daquele quadradinho, a escola tem que parar de funcionar como caixinha, tem que ser desse jeito se a gente é diferente pra caramba.” Cildea dos Santos

Adélia Chaves e Cildea dos Santos, professoras da Jairo, discutem sobre quais são as melhores formas de inovação para a sala de aula. 

No caso de Perus, encontramos essa escola, aos olhos de outras escolas públicas, privilegiada SIM! Com professoras engajadas em realizar atividades que fujam do convencional e um material disponível para que essa turminha apronte várias sem entrar em uma fria. Mas se você chegou até aqui, deve ter percebido todo o trabalho que foi concentrado para isso. Se nas redes sociais o sorriso da menina risonha que ri e sonha pode esconder um problema. Fique também atento à vida real. Uma escola pública não é um caso de sucesso quando é sucesso sozinha. No final das contas, tá todo mundo mal.