Sentimento do mundo

Literatura, na Escola Estadual Maria de Lourdes Teixeira, em Carapicuíba (SP), vai de Machado a memes e quem toca a ideia é a professora Giseli Bernardes

Escola também é lugar de fazer arte. Caso contrário, pessoal zarpa. É o que acontece, por exemplo, na Escola Estadual Maria de Lourdes Teixeira, de Carapicuíba (SP). O shopping fica a dez minutos de lá e a professora de Língua Portuguesa, Giseli Bernardes, conta que frequentemente os alunos dão uma escapada para ir ao cinema. Para ela, o ambiente escolar é "chato" e precisa ser reinventado caso realmente esteja interessado em manter sua função educadora. Com toda possibilidade que a internet apresenta, a competição para atrair a atenção dos estudantes está cada vez mais acirrada.

 

Ela, que escuta comentários dos alunos como cada um deles escuta os dizeres de seus respectivos fones de ouvido, teve a ideia de trazer a linguagem das redes sociais para dentro da sala de aula. O que a impulsionou foi o comentário de uma aluna que, depois, de terminar a leitura do livro A Cartomante, de Machado de Assis, definiu sua reação com um meme. Foi, então, que Giseli instituiu o meme como atividade pra geral. A ideia de 2018 foi tão bem-sucedida que neste ano, a professora repetiu. Agora, com o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e com memes ainda mais elaborados.

 

A escola tem 23 salas de aula, mas apenas uma que permite a reprodução de conteúdo multimídia. Permanece fechada a maior parte do tempo. Primeiro, para que os alunos não estraguem o material. Segundo, porque é necessário agendamento prévio para uso dela. Como se não bastassem esses bloqueios, a responsabilidade do local fica a cargo da diretora, o que não é bem a sua prioridade. Existe toda a papelada de pagamento dos funcionários que precisa ser organizada. Assim, fica difícil localizar as chaves da sala quando a diretora anda tão ocupada. Resultado: quase ninguém usa esse espaço. Muito mais simples é instruir os alunos a usarem o próprio celular.

GIseli Bernardes, professora da escola Maria de Lourdes Teixeira, relata um pouco da sua realidade e dos trabalhos feitos com memes.

Além de uma escuta atenta, Giseli desenvolveu um sistema próprio para entender os jovens. Chama-se: tempo. Ela comenta que prefere acompanhar sempre uma mesma turma, dos anos iniciais do fundamental I aos últimos do ensino médio. Cria-se um território amigável e de confiança. Dois elementos que considera fundamentais para estimular o aprendizado. Conhecendo bem os seus alunos afirma com firmeza não ter problema com nenhum deles. Um tanto de conversa e um pouco de puxão de orelha e tá pronta a receita.

 

Nos jornais, no entanto, a manchete é outra. A gigante da tv brasileira montou uma programação detalhada do incidente que aconteceu na escola em maio deste ano. Alunos se estressaram com uma professora e arremessaram livros, carteiras e cadeiras. Situação daquelas que realmente comove. Difícil de engolir. Há tempos, a diretora fazia pedidos ao governo para a reposição de funcionários. Contratação de inspetores e seguranças. Tentativas em vão.

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Assim, fica fácil entender o porquê de Giseli ser tão seletiva a respeito da divulgação de seus projetos. Quando uma iniciativa inovadora vinga em escolas onde o cenário não antecipa boas notícias, a exceção é tomada como regra. O esforço da professora é romantizado e passa a pautar discursos de pressão sobre outras professoras que até então, não tinham a mesma relação com o trabalho. O intuito é justamente evitar esse tipo de abordagem. Não ovacionar trabalhos criativos quando por trás disso há a normalização de uma sobrecarga.

Demarcar a existência de uma escola somente quando envolvida em um episódio negativo também não parece boa jogada. Espetacularização e sensacionalismo em rede nacional. Parece que a questão não atinge níveis de profundidade e fica eternamente em um limbo flutuante de estereótipos. A medicina ocidental está para o tratamento de doenças assim como as coberturas midiáticas estão para a análise de problemas estruturais. Nenhum dos dois age de forma preventiva. O fato pelo fato, que inicia, bomba e encerra em si mesmo. Fechamento de redação. Próxima pauta.

 

Enquanto isso, em Carapicuíba. Giseli costura literaturas alternativas em ritmo desacelerado. Tempo de educar é muito parecido com tempo de arte, exige maturação e paciência. Um meme de cada vez. Para quem trabalha com a matéria do aprendizado, o final do trajeto é sempre uma incógnita. Um aluno muito diferente do outro, complicado prever como a mensagem chega em cada um. Escola com poucos recursos mas cheia de ideias. Sentimentos que não cabem apenas em duas mãos, ombros que suportam o mundo.