Igualdade é fake news

Escutamos a opinião de 9 estudantes sobre a experiência de terem participado do projeto envolvendo memes e Revolução Francesa proposto pela professora Melina Pinotti

Em 1990, Almir Sater, natural de Campo Grande (MS) ganhava o Brasil com sua canção Tocando em Frente, gravada pela primeira vez por Maria Bethânia. Coincidência ou não, vinte e sete anos depois, surge mais um grande sucesso no estado: o projeto da professora de história Melina Pinotti. Quem diria que o simples rolar de tela pelo feed de notícias do Facebook renderia insights tão preciosos? Foi passeando por páginas desta rede que a professora teve a ideia de usar memes para ajudar na explicação do conteúdo em sala de aula.

 

O assunto era Revolução Francesa e todo mundo já sabia de cor os lemas iluministas. Os alunos do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Professora Nair Palácio de Souza, do município de Nova Andradina, de tão afiados na matéria, respondiam pelo nome de Voltaire. Mas, como diz o filósofo contemporâneo Érick Jacquin, faltava tompero nisso tudo. O estudo de tempos passados, entre outros motivos, se faz tão importante por causa da compreensão que gera sobre o presente. E era justamente este o ponto que Melina gostaria de trabalhar.

 

Soprou o pó da capa, acumulado pelo desuso generalizado, e sacou logo a Constituição Federal para mostrar para a turma. Tomando como ponto de partida o Artigo 5º, aquele que diz que “Todos são iguais perante a lei”, pediu aos alunos que fizessem memes apontando com dados a contradição dessa suposta igualdade. Neste momento, euforia no recinto. Os estudantes que acharam que a atividade com memes, enfim, seria o aval para fazer piada dos colegas, ouviram um sussurro de Rogerinho do Ingá ao fundo: “Achou errado, otário”.

 

Nem sempre o meme precisa ser engraçado. Para aquele momento, Melina queria aproveitar o potencial do meme enquanto suporte para mensagens rápidas e enfáticas. Divididos em grupos, os alunos, então, pesquisaram informações a respeito das desigualdades no Brasil e, partindo da expressão “somos todos iguais, mas...”, produziram os memes. A entrega foi feita via whatsapp, ele mesmo, famoso por ser o canal das fake news estaria agora sendo usado para compartilhar memes embasados em dados.

 

Ouça a seguir áudios (não-vazados) sobre o que os alunos acharam do projeto. E confira alguns dos memes produzidos por eles no nosso acervo! Quanto à Melina, o que podemos dizer? Compreendeu a marcha para, enfim, ir tocando as aulas em frente. 

Bárbara Pereira
Aluna de Melina e, hoje, estudante de direito
00:00 / 01:05

“Acho que o meme é uma abordagem pedagógica que poderia ser utilizada mais vezes, chama a atenção dos alunos. A importância dos trabalhos com a cultura digital bate na tecla de que a tecnologia está na vida de todo mundo. Inclusive, na dos jovens que estão no ensino médio. Ao invés de afastar a tecnologia das escolas, deve ter um meio para incluir isso que a gente já usa no dia a dia”

Maria Fernanda Andrade
Aluna de Melina e, hoje, estudante de direito

"Eu achei o trabalho superinteres-sante, agregou muita coisa para a gente. [...] Inspirou muitos outros professores, eu diria, a tomarem essas iniciativas de fazer coisas que fogem do costume, do tradicional. A gente pesquisou também, mas não somente para escrever. Porque, às vezes, a gente copia e cola e não aprende de fato. Mas, ali, a gente conseguiu realmente extrair o que a professora estava querendo passar para gente"

00:00 / 01:23
Matheus de Oliveira
Aluno de Melina e, hoje, estudante de matemática

"Esse projeto foi implementado pela professora Melina com o intuito de mostrar que todas essas diferenças presentes na atualidade são consequência de um processo histórico. De início, estranhei, porque era uma atividade nova. Mas, logo após, houve o entendimento da utilização dessa ferramenta (que é o meme). A gente entendeu que com ela conseguiria trabalhar essas problemáticas sociais através de ironia"

00:00 / 00:41
Eduarda Rocha
Aluna de Melina e, hoje, estudante de enfermagem
00:00 / 00:53

"A ideia foi incrível porque a gente pode se expressar sem ter o receio de outras pessoas virem nos criticar. O resultado foi muito top, porque a gente pode perceber o que cada um pensava sobre tal assunto. No ambiente que a gente vive hoje, as pessoas utilizam muito de aparelhos tecnológicos. Então, relacionar tecnologia com educação é uma forma de fazer com que a gente queira se aprofundar mais em certos assuntos"

Hellen Omito
Aluna de Melina e, hoje, estudante de direito
00:00 / 00:51

"Até mesmo quem nasceu nessa era tecnológica tem um estranhamento com a quebra dos padrões na educação. Mas, depois, eu percebi a importância do trabalho e como a tecnologia na educação é fundamental. Nós sabemos que nem todos têm acesso à tecnologia ou disposição para usar internet. Mas onde eu estudava, a escola sempre aparentou estar disposta a incluir essas pessoas que não tinham acesso"

Nathalia Navarro
Aluna de Melina e, hoje, estudante de direito
00:00 / 00:41

“Infelizmente, não foi um tipo de trabalho proposto por outros professores. Mas foi bem desenvolvido e todo mundo aceitou muito bem. Ajudou no entendimento da matéria que a gente estava estudando no momento. Abriu a nossa cabeça e foi muito importante para a gente entender todo o conteúdo dentro do nosso contexto (internet) de hoje”

Camila Menez
Aluna de Melina e, hoje, estudante de medicina
00:00 / 01:08

“Foi um trabalho muito divertido de fazer, ao mesmo tempo que foi muito consciente. Não acho que por esse projeto ter sido realizado em escola pública dificultou alguma etapa do desenvolvimento. Todo mundo levou bem a sério esses memes. Depois disso, viu como que a gente não vive num mundinho só de coisas boas… O mais importante de isso tudo foi a conscientização de como é o mundo ao nosso redor”

Tatiele Amaral
Aluna de Melina e, hoje, estudante de engenharia
00:00 / 00:50

"Às vezes, dentro de uma rede social, as pessoas leem coisas e elas não ligam muito para aquilo. Mas quando elas veem em forma de meme, que é uma coisa que elas veem o tempo todo, compartilham, dão risada, então, causa um impacto maior. Foi um trabalho um pouco difícil de desenvolver. O que é engraçado porque a gente tá na rede social, passa a maior parte do dia ali, mas na hora de fazer um trabalho assim…”

Raíssa de Matos
Aluna de Melina e, hoje, curtindo um ano sabático
00:00 / 00:54

"A frase inicial era “Somos todos iguais, mas…”. Aí, com a imagem e a frase interagindo entre si, nós criaríamos um meme que destacasse um problema social. A princípio eu não tinha entendido como seria a interação com as redes sociais. Mas, depois, vi que foi muito legal, teve uma interação muito grande de outras pessoas que puderam ver o que a gente faz em sala de aula"

* Os memes utilizados para identificar cada um dos estudantes foram escolhidos por eles mesmos